Cenários

Refinando o Pensamento Estratégico

  

Botao de Panico

Introdução

 

 

O planejamento através de Cenários é um “approach”. Uma forma de planejar  que começa através da assunção de que, “por mais que tentemos, nós simplesmente não podemos prever ou controlar o futuro”. Podemos apenas imaginar diferentes formas para as quais o futuro poderá convergir, saindo fora do curso que hoje faz sentido e tentar ser flexível ou estar alerta quando o inevitável e inesperado ocorrer.

 

O que é Planejamento Baseado em Cenários

A idéia dos cenários é provavelmente mais velha que a humanidade. Um cenário é uma ferramenta para organização da percepção de alguém, em relação a futuros ambientes alternativos, os quais devem ser lembrados. Como metodologia tem sido largamente utilizado em áreas militares e da administração moderna.

Um caso muito comentado em publicações especializadas é a polêmica causada na questão de como os aviões influenciariam as batalhas navais na 1ª Grande Guerra. Quando o General de Brigada Billy Mitchell sugeriu que aviões poderiam afundar navios de guerra lançando bombas, o Ministro da Guerra dos EUA, Newton Baker, achou tão improvável que disse na ocasião que estaria disposto a ficar na ponte de comando de um navio enquanto um louco poderia tentar acertá-lo com bombas a partir de um avião. Sabe-se que hoje o principal inimigo de um navio de guerra são os aviões.

Mas somente nos últimos 30 anos, face ao crescimento incerto e complexo, é que as corporações e outras grandes organizações globais começaram a desenvolver um processo de planejamento através de cenários.

 

Alguns exemplos de como a previsão do futuro é falha, até mesmo por mentes brilhantes. O quadro abaixo mostra declarações de pessoas inteligentes que, com grande convicção, fazem suposições erradas sobre o futuro.

Botao de Panico

 

“Máquinas voadoras mais pesadas que o ar são impossíveis.”

Lorde Kelvin, matemático e físico britânico, presidente da Real Sociedade Britânica em 1895

“Com mais de 50 marcas de carros estrangeiras comercializadas nos EUA, a indústria automobilística do Japão provavelmente não irá conquistar uma parcela expressiva do mercado americano.”

Business Week, 2 de agosto de 1968

“Acredito que há mercado mundial para cerca de cinco computadores.”

Thomas J. Watson, presidente da IBM em 1943

“Não gostamos do som deles. Grupos com guitarras estão em decadência.”

Executivo da Decca Recording rejeitandoos Beatles em 1962

“Não importa o aconteça, a marinha americana não vai ser pega cochilando.”

Frank Knox, ministro da marinha americana em 4 de dezembro de 1941, às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor.

 

 

Os executivos que puderem expandir sua imaginação para ver uma gama mais ampla de possíveis futuros estarão muito melhor posicionados para aproveitar as oportunidades imprevistas que surgirão. E os executivos de hoje contam com algo que aqueles líderes de defesa não tiveram: o planejamento baseado em cenários. Infelizmente pouquíssimas empresas o usam.

 

Se na década de 70 a General Motors utilizasse um planejamento baseado em cenários ela teria explorado as conseqüências da OPEP, a geração yuppie, a globalização, o ambientalismo e a importância da qualidade e velocidade na manufatura. A IBM e a Digital teriam, ainda na década de 80, explorado o profundo impacto do computador pessoal, que impulsionou o declínio do “Mainframe" verticalmente integrado e a ascensão do processamento distribuído.

 

São muitos os exemplos de fiascos por inexistência dessa ferramenta, a saber: a Philips nos mercados eletrônicos, apesar de sua tecnologia de ponta; os problemas sindicais e de imagem da Disney em seu parque temático na França; a Sony no setor de filmes etc.

 

 


Então o que é exatamente um Planejamento baseado em cenários ?

 

O planejamento baseado em cenários é um método disciplinado para imaginar possíveis futuros. Vem sendo aplicado a uma grande variedade de questões.

 

A Royal Dutch/Shell usa cenários, desde o início dos anos 70, como parte de um processo para gerar e avaliar suas opções estratégicas. Foi utilizando essa ferramenta, que ela foi capaz de antecipar o embargo árabe ao petróleo e então, antecipando e se preparando para a dramática queda dos preços do barril de petróleo durante os anos 80, manteve-se sólida e confiável até os dias de hoje.

 

É um processo altamente interativo, intenso e imaginativo.

 

A fase inicial normalmente envolve um rigoroso desafio das formas como alguém mentalmente mapeia suas percepções, freqüentemente através de recursos não ortodoxos. Todos nós vemos certas coisas e temos vendas ou obstruções sobre outras. Nossa percepção está formada por nossos sucessos ou falhas no passado, as quais não devem mais ser relevantes. Um bom projeto de planejamento baseado em cenário deve expandir a visão periférica do líder e forçar um confronto com suas próprias convicções.

 

Os próximos passos são mais analíticos: identificar as forças direcionadoras (social, econônica, política e tecnológica) e elementos pré-determinados, os quais são inevitáveis no futuro, tais como fatores demográficos que já estão em questão. Esses fatores são então priorizados de acordo com a importância e incerteza.

 

Esses exercícios culminam em três ou quatro cuidadosas construções de cenários. Na prática, cenários assemelham-se a um conjunto de estórias, escritas ou faladas, construídas ao redor de construções cuidadosas de demarcações que soam como alicerces lógicos.

 

 

 


Uma ferramenta de planejamento

 

Suponha que se esteja planejando uma escalada de montanha. Um planejamento prévio forneceria um mapa detalhado, descrevendo os elementos permanentes do terreno. Naturalmente essa ferramenta de planejamento tradicional é muito valiosa e realmente indispensável no caso. Assim como o mapeamento geográfico é uma respeitável soma de arte e ciência, o mapeamento empresarial também pode ser bastante útil. Contudo é incompleto. Em primeiro lugar, o mapa é uma representação distorcida. Qualquer mapa bidimensional distorce a superfície da terra. Segundo, ignora os elementos variáveis como clima, desabamentos de terra, animais e outros imprevistos.

 

Provavelmente a mais importante dessas incertezas é o tempo, e uma das opções para lidar com ela é processar dados meteorológicos detalhados do passado, possivelmente com ajuda de simulações por computador.

 

Contudo, o planejamento baseado em cenários vai além. Ele simplifica a avalanche de dados ao levar em conta um número limitado de situações possíveis. Cada cenário conta a história de como vários elementos poderiam interagir sob determinadas condições. Quando os relacionamentos entre elementos podem ser formalizados, a empresa pode desenvolver modelos quantitativos. Ela deve avaliar cada cenário em termos de consistência interna e plausibilidade. Alta visibilidade e nevascas, por exemplo, são uma combinação implausível. Embora, às vezes, as delimitações do cenário possam ser confusas, uma narrativa detalhada e realista poderia direcionar a atenção dos executivos para aspectos que eles negligenciaram em outras circunstâncias. Assim , o cenário de uma nevasca intensa (com baixa visibilidade) poderia realçar a necessidade de proteção para a pele, óculos protetores, reservas de alimentos, rádio, abrigo etc.

 

O planejamento baseado em cenários difere de outros métodos de planejamento, tais como planos de contingência, análise de sensibilidade e simulações por computador. Os planos de contingência examinam exclusivamente uma incerteza, por exemplo, “E se não conseguirmos a patente ?”. Ele apresenta um caso básico e uma exceção ou contingência. Cenários exploram o impacto conjunto de várias incertezas, colocadas lado a lado com pesos iguais.

 

Já a análise de sensibilidade examina o efeito da mudança em uma variável, mantendo todas as outras variáveis constantes. No caso de pequenas mudanças, a movimentação de uma variável de cada vez faz sentido. Por exemplo, poderíamos perguntar o que acontecerá à demanda de petróleo se o produto nacional bruto aumentar apenas uma fração percentual e tudo o mais permanecer constante. Contudo, se a mudança for muito maior, outras variáveis (como taxas de juros, base monetária etc) não continuarão constantes. Os cenários, por outro lado, mudam diversas variáveis de uma vez. Eles podem captar situações inéditas que se desenvolverão caso ocorram grandes choques ou desvios importantes nas principais variáveis.

 

Por fim, os cenários são muito mais do apenas resultado de um modelo de simulação complexa. Ao contrário, eles tentam interpretar esse resultado através da identificação de padrões e agrupamentos entre os milhões de resultados possíveis que uma simulação por computador poderia gerar. Freqüentemente, os cenários incluem elementos que não foram ou não podem ser formalmente modelados, como novas leis, alterações de valores ou inovações. Consequentemente, os cenários vão além das análises objetivas ao permitirem a inclusão de interpretações subjetivas.

 


Construindo cenários

 

Construir essas diferentes formas de ver o futuro não é tão fácil como parece à primeira vista. Isto é porque nossa forma de ver o futuro é limitada por nossa visão moral. A nossa visão moral é um modelo de percepção projetada que nós deixamos fora do mundo e sustentamos com o nosso sistema de crenças. Esse modelo é muito difícil de mudar. Nossa visão tende a manter-nos em um cenário padrão.

 

Para construir cenários nós necessitamos de um processo que nos ajude a fugir dessa visão moral dominante. Uma enorme variedade de perspectivas deve ser reunida do lado de fora dos limites da cultura da organização, assim como de dentro. A essas perspectivas, imaginação e lógica devem ser combinadas para escrever a história do futuro. Essas histórias não devem suportar apenas imagens do futuro mas também um caminho de como os eventos através do tempo podem comandar-nos, de onde estamos agora para o mundo futuro.

 

 

O que nós achamos que já sabemos sobre o futuro?

 

Uma vez que o planejamento baseado em cenários trata de explorar criativamente nosso futuro incerto, é também importante dar uma primeira armazenada no que já temos certeza sobre o futuro, separando claramente tudo o que está perfeitamente planejado para não incorrermos em erros lógicos.

 

Se achamos já que já conhecemos muito sobre o futuro, teremos que nos despir desse pensamento para poder levantar a maior quantidade de possibilidades.

 

Botao de Panico

Conclusão

 

Também é importante tomar especial cuidado com o que achamos que sabemos do futuro sem termos certeza dos fatos. Devemos imaginar até o que não sabemos que não sabemos. Assim poderemos fazer nossa “viagem” ao futuro com muito mais convicção e com a certeza de acertar na elaboração de cenários condizentes com as reais condições que deveremos encontrar no futuro.

 

Em resumo o planejamento baseado em cenários tenta captar a riqueza e a variedade de possibilidades, estimulando os tomadores de decisão a considerarem mudanças que, caso contrário, ignorariam. Ao mesmo tempo, organiza essas possibilidades em narrativas mais fáceis de apreender e usar do que grandes volumes de dados. Acima de tudo, porém, os cenários estão voltados para o desafio do pensamento prevalecente. Portanto, o planejamento baseado em cenários difere das técnicas anteriormente mencionadas na forma como gera conhecimento.


 


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